Thursday, December 14, 2006

Mozart: Barth disse, e Dooyeweerd concordou!

Bem, creio que todos os que me conhecem melhor sabem da minha paixão por Mozart - mesmo que eu não passe de um ouvinte diletante.
Tive acesso, no ano passado, a um dos raríssimos estudos sobre cultura de Karl Barth, na coletânea de Leibrecht em homenagem a Paul Tillich. Trata-se do famosíssimo - dentro de uma insignificante parcela da população mundial, naturalmente - "Wolfgang Amadeus Mozart", um artigo de Barth que ainda pretendo traduzir. Deveria ter sido neste ano - o "ano Mozart", mas meu cérebro não me permitiu tal façanha. No ano que vem, quem sabe...
Mas a referência ao artigo se deve a uma descoberta curiosa. No excelente site sobre Dooyeweerd de Glenn Friesen - um erudito bastante excêntrico que passou dois meses em L'Abri, visitou a Índia, foi aluno de Hendrik Hart quando este ainda era conservador, e finalmente, estudou com o próprio Dooyeweerd - encontrei uma historieta que só poderia correr mesmo fora dos livros. Segundo o Friesen, numa espécie de sarau musical, na casa da filha de Dooyeweerd, ele teve a oportunidade de ouvi-lo comentar Barth. Cito Friesen:
"Então Dooyeweerd falou-me a respeito de música. Ele me disse que Barth tinha dito que, quando os anjos no céu são requisitados a tocar diante de Deus, eles tocam Bach. Mas que, quando eles tocam por si mesmos [para se divertir, no original Barthiano], eles tocam Mozart [e mesmo Deus se diverte com eles, diz o original]. Para sempre em me lembrarei e apreciarei este lado humano de Dooyeweerd."
Como deve ter ficado claro nas minhas observações em itálico, Dooyeweerd citou o artigo de Barth. É compreensível, desde que Dooyeweerd não apenas lia Barth; também era músico, e tocava piano bem, segundo dizem. E eu concordo com ambos: Deus fez Mozart para se divertir, e a todos nós. E se alguém não acredita nisto?
Ora, quem tem ouvidos para ouvir, ouça...

Thursday, November 30, 2006

KUYPER E O CONFLITO FÉ E CIÊNCIA

Segundo Kuyper, não existe um conflito básico entre fé e ciência, pois a ciência, quando tenta estabelecer a relação entre sujeito e objeto, necessita pressupor pela fé vários princípios não verificáveis racional ou empiricamente. Dentre estes estão: a autoconsciência do investigador; o trabalho acurado dos sentidos na medida em que este fornece informações reais sobre a externalidade; o funcionamento correto das leis do pensamento atuando no sujeito da investigação; fé em algo universal escondido por detrás dos fenômenos especiais; fé na vida; e fé nestes princípios gerais dos quais o sujeito procede em qualquer empreendimento científico (2002: 138).
Em sua obra Sacred Theology, Kuyper parte de uma reflexão interna do próprio processo de fundamentação da ciência, dialogando com propostas empiristas e racionalistas, afirmando a base cristã fundamental do próprio empreendimento científico, o qual o influenciará na proposta de uma ciência cristã. Após explorar os aspectos da relação entre sujeito e objeto Kuyper afirma que:

Uma vez que o objeto não produz o sujeito, e o sujeito não produz o objeto, o poder que liga os dois organicamente juntos precisa necessariamente ser buscado fora de ambos (...) e por mais que ponderemos ou tentemos especular, não há forma de conceber como esta relação de afinidade orgânica se apresenta (...) sob a qual o edifício da ciência é erigido, até que às mãos da Escritura Sagrada confessamos que o Autor do cosmos criou o homem no cosmos como micro-cosmos conforme sua imagem e semelhança. (Kuyper, 1980:19)

Um segundo aspecto fundamental na proposta kuyperiana que fundamenta sua proposta de duas ciências é a afirmação de que o sujeito do fazer científico opera basicamente em um processo de encadeamento causal a partir de princípios firmemente estabelecidos em sua consciência. Segundo Kuyper, o grau de certeza que uma pessoa tem de sua convicção não pode ser exposto sem causar a antítese com o resultado científico de outros, se tornando fator marcante no resultado científico. E isto se torna ainda mais presente quando se trata de uma ciência espiritual, cujo objeto é psíquico. A consciência subjetiva de comunidades inteiras, das quais procedem os princípios gerais que orientam o empreendimento científico, operam fortemente na direção das ações humanas, moldando-os conforme seus princípios, seja na ciência, na arte, religião, vida social, e negócios (1980: 49).
Como aspecto de diferenciação básica entre duas propostas científicas está à noção kuyperiana de palingenesis, ou nova criação. A dogmática descreve, segundo Kuyper, a realidade experimentada pelos filhos de Deus, de que ocorre no homem regenerado uma transformação fundamental que está acima da consciência humana, e que a transforma de forma radical, uma regeneração, um nascer de novo, seguido por uma iluminação, que modifica o homem em seu mais interno ser. Esta distinção gerada pela palingeneses não é em grau ou especificidade, mas de tipo, como na relação entre uma arvore enxertada e uma selvagem, que gerarão frutos completamente distintos. Segundo Kuyper:

Nos falamos enfaticamente em dois tipos de pessoas. Ambos são humanos, mas internamente são distintos um do outro, e consequentemente sentem um conteúdo distinto emergindo de sua consciência; assim eles encaram o cosmos de diferentes perspectivas, e são impelidos por diferentes impulsos. E o fato de que há dois tipos de pessoas ocasiona a necessidade do fato de que há dois tipos de vida e de consciência de vida, e de dois tipos de ciência. (1980: 51)

Para Kuyper, assim, a aceitação da unidade da ciência seria a negação do fato da palingeneses, e que por princípio conduz à negação da própria religião cristã. Assim, mesmo operando com impulsos em direção ao fim da ciência e utilizando métodos semelhantes, os dois modelos de ciência partem de princípios distintos, e chegarão a resultados distintos, estabelecendo a afirmativa de que no esforço científico destas duas comunidades estão sendo construídos dois edifícios do conhecimento científico, e não um. E embora a palingeneses não interfira sobre a capacidade de apreensão dos sentidos e do uso das leis da lógica, presente no início de qualquer processo científico, a interpretação posterior presente em todas as ciências, seja nas naturais ou espirituais, conduzirá o empreendimento científico a resultados claramente distintos.

Assim, somente a partir de uma cosmovisão cristã abrangente pode a ciência ter restaurado seu domínio, ser favorecida em sua busca como pela própria glória de Deus, e produzir resultados verdadeiros, em consonância com o estado das coisas na realidade do universo criado por Deus compreendido a partir de sua revelação.


BIBLIOGRAFIA

KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Editora Cultura Cristã. 2002.
KUYPER, Abraham. Sacred Theology. Delaware: Associated Publishers and Authors, 1980.

Saturday, November 25, 2006

Como se pronuncia "Dooyeweerd"?

Dói-véred, segundo um amigo. Último "e" quase omitido.

Friday, November 24, 2006

Sobre Mito e Realidade

Antes de iniciar o texto, cabe dizer que não se trata de uma resenha sobre o livro de Mircea Eliade, ou de considerações maduras sobre Lévi-Strauss - apesar de este e aquele serem citados ou estajam presentes aqui. Deveras, esse é um texto-resposta ao post Aforismos... de Marcel Camargo - ou um comentário longo demias para ser postado em seu blog. Portanto, não seria má idéia conferir o texto do Marcel.

O mito é o resultado de uma diferença insuperável, uma resposta estrutural da cognição humana para o problema da distinção da antítese. O pensamento mitológico, então, fixa-se como uma tentativa de plasmar no entendimento uma distinção insuperável, sua orígem e "gestão" na realidade, tal como percebida. Se temos a liberdade de fazer (e, por que não?) um híbrido entre Lévi-Strauss e Weber (tomara que nenhum antropólogo profissional leia o que estou escrevendo), o mito constitui-se num mapa cognitivo (como bem nos disse Marcel) que localiza distinções e estabelece relações, que posto sobre a realidade caótica (aqui temos Weber) sem qualquer ordem preestabelecida (essa forma ortográfica modernosa está no Houaiss) ou que a cognição humana seja capaz de compreender/perceber; precisando, assim, lançar mão de mecanismo para que conhecimento e relação sejam possíveis - tanto no mundo da Natureza quanto no da Cultura - é com isso que o indivíduo, sujeito da ação, pode atribuir sentido.

Continua aqui.

Monday, November 20, 2006

Carta à redação da revista "Época" (Versão do Diretor)

Prezado responsável,

Gostaria que fosse considerado meu breve comentário referente ao texto "A igreja dos novos ateus" de Alexandre Mansur e Luciana Vicária com Mariana Sanches, publicado em Época, 443, 13 de novembro de 2006, p.88-97. Meu nome é Lucas Grassi Freire e sou estudante universitário em Belo Horizonte. Interesso-me por filosofia da ciência e a relação entre ciência e religião, além de ser cristão e criacionista, o que me levou a comentar sobre o texto. Sabendo que há muito pouco tempo para a análise de cartas à redação, resolvi escrever um parágrafo de comentário somente.

O artigo sobre o ateísmo de pessoas como o Sr. Dennet, o Dr. Dawkins e de tantos outros tem um título muito bem escolhido. Ninguém está livre de pressuposições religiosas no raciocínio e o ateísmo é mais uma ilustração disso. Dennet tentou construir um argumento para concluir que o teísmo é falso, por ter sido mais um produto da evolução. Com isso ele ironicamente seria obrigado a concluir que a ciência naturalista também é falsa, por ser mais um produto da evolução arbitrária e caótica. Com efeito, ateus de forte retórica como Dennet, na ausência de bons argumentos, recorrem à "lei do mais forte" para se impor no mundo da ciência com esse tipo de tese. Na verdade, a ação tentar argumentar contra o teísmo é contraditória. Dentro da visão ateísta de um mundo caótico, defendida por Dennet, a lógica não pode fazer sentido algum, mas dentro do teísmo cristão a lógica faz todo o sentido. Por isso, Dennet e os seus só conseguem argumentar pressupondo o cristianismo ou parte dele, o que não faz sentido segundo seus próprios critérios. Por isso, o ateísmo é, sim, uma religião e recorrer à "ciência" nesses termos para defendê-lo é auto-contraditório.

Grato pela atenção,

Lucas G. Freire

Tuesday, September 19, 2006

Filosofia Neocalvinista em Português: Uma Bibliografia Comentada

Outro dia destes (na verdade, há algum tempo...) o Nagel me pediu uma pequena bibliografia com textos fundamentais de filosofia reformacional. Achei melhor disponibilizar uma lista no Blog, que ficasse acessível a todo mundo.
Um problema que enfrentamos, atualmente, é que toda a bibliografia de neocalvinismo em português consiste de trabalhos teológicos. Faltam estudos propriamente filosóficos. Estes se encontram em inglês, apenas. Para quem não lê inglês, ou não tem acesso aos livros, será preciso se contentar com o que temos. Mas não é que os livros disponíveis não seja bons; o problema é que alguns indivíduos negam a existência de uma filosofia calvinística pelo simples fato de só conhecerem a teologia calvinista...
Eu sugeriria, antes de tudo, como ponto de partida, a obra Calvinismo, de Abraham Kuyper, pela editora Cultura Cristã (Lectures on Calvinism). É o livro seminal do movimento.
Um outro livro fundamental, agora esgotado, é A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna, de R. Hooykas (ed. Universidade de Brasília). Professor de História da Ciência na Universidade de Utrecht, mostra como a ciência moderna nasceu a partir da Reforma Calvinista.
Depois, em português, a trilogia de Francis Schaeffer: O Deus que Intervém, O Deus que se Revela, e A Morte da Razão. No primeiro temos um exemplo excelente da apologética pressuposicional de Schaeffer. No segundo, uma apresentação de seus pressupostos filosófico-teológicos, que são derivados, em grande medida, de seu antigo professor, o Dr. Cornelius Van Til. No terceiro, Schaeffer apresenta panoramicamente uma crítica da cultura e do pensamento ocidental, que complementa "O Deus que Intervém". Essa crítica é inspirada principalmente em Herman Dooyeweerd, via Hans Rookmaaker.
Mas, além da trilogia, recomendamos os outros livros de Schaeffer: Poluição e Morte do Homem, E Agora, Como Vamos Viver?, A Verdadeira Espiritualidade, etc.
Temos um livro interessante, que apresenta a apologética vantiliana, e critica um pouco Schaeffer: A Soberania Banida (R.K. McGregor Wright, Cultura Cristã). O livro mostra as raízes pagãs do projeto de um pensamento autônomo, bem como as conexões do arminianismo com tal projeto. Em minha opinião, no entanto, a abordagem Schaefferiana à apologética é superior (e a de Dooyeweerd, na filosofia, é muito superior).
Temos também os livros da Nancy Pearcey: E Agora, como Viveremos?, escrito comCharles Colson, é uma ótima introdução à cosmovisão cristã - exceto por sua birra com a doutrina da predestinação. Trata-se de um livro mais popular, entretanto. Seu livro A Alma da Ciência (Cultura Cristã) apresenta um nível mais alto, mas não discute muito a própria filosofia reformada.
De maior interesse é seu best-seller, Total Truth - muito mal traduzido em português, tanto no título como no conteúdo, pela CPAD - A Verdade Absoluta. O livro foi lançado no Congresso de Ética e Cidadania, da Mackenzie (2006), quando a Nancy esteve presente ministrando sobre religião e ciência. Foi quando obtive a minha cópia autografada... Novamente, não desenvolve um sistema de filosofia reformacional; em contrapartida, apresenta com cuidado e genialidade um dos aspectos centrais da cosmovisão reformada - a tríade Criação, Queda e Redenção - utilizando-a como ponto de partida para a crítica cultural e a proposta de ação cristã no mundo. A Nancy reconhece no prefácio do livro sua dívida para com a filosofia de Herman Dooyeweerd.
Não poderíamos nos esquecer da obra Paixão pelo Paradoxo, de Ricardo Quadros Gouveia, que trata, na verdade, do pensamento de Kierkegaard, mas o faz construindo pontes interessantes com a tradição neocalvinista.
Sem falsa modéstia, recomendo o livro que editei juntamente com o Maurício Cunha e o Claudio Leite, pela Ultimato: Cosmovisão Cristã e Transformação: Espiritualidade, Razão e Ordem Social. Neste livro tomamos a filosofia social kuyperiana-Dooyeweerdiana como ponto de partida para uma reconfiguração do projeto de missão integral no Brasil. Além de ser uma obra feita totalmente por brasileiros - a primeira e ainda única na tradição neocalvinista - nela se encontra um capítulo dedicado à introdução à filosofia de Herman Dooyeweerd. Mas saber mais sobre este livro, e outras publicações minhas, clique AQUI.

À medida em que novas obras sobre o tema aparecerem, vamos atualizar este post!

Um abraço,

Guilherme

Friday, July 07, 2006

Sobre a Natureza da Fé

Os últimos meses me trouxeram algumas oportunidades muito interessantes de discutir o conceito de "Fé", a partir da filosofia reformacional. No início do ano eu apresentei uma discussão metodológica para o meu professor de Sociologia das Organizações Religiosas, o Dr. Leonildo Silveira Campos, em torno da possibilidade de se usar a fé como princípio explanatório associado à dinâmica social. Usei, na oportunidade, um pouco de Dooyeweerd, Peter Berger e uma obra interessantíssima do filósofo judeu Nathan Rotenstreich: "On Faith" (Chigaco University Press). Uma espécie de fenomenologia da fé.

No 12 Encontro da Sociedade Paul Tillich, em Maio, eu apresentei uma discussão crítica sobre o conceito de Fé de Tillich, que foi publicada agora, na CORRELATIO 9 (a revista da sociedade Paul Tillich), com o título "Sobre a Definição de Fé em Paul Tillich". Publiquei também uma resenha do livro de Rotenstreich, intitulada "As Estruturas Universais do Ato de Fé" (depois fiquei pensando: que título pretensioso, hehehe! Mas, na verdade, é isso mesmo o que Rotenstreich tenta fazer...).

Nesta primeira semana de Julho eu apresentei dois trabalhos no congresso da ALER, em São Paulo: "A Relevância do Teísmo Cristão para a Ciência no Pensamento de Roy Clouser", e "O Conceito de Crença Religiosa em Roy Clouser: Algumas Implicações para o Estudo da Religião". Nesta última eu fiz uma ponte entre Clouser e o trabalho sobre sociologia das organizações, que citei há pouco.

Numa conversa posterior o Dr. Steven Engler, coordenador da mesa, percebeu a conexão da proposta com Tillich - na verdade, Clouser foi aluno de Tillich! Uma curiosa proximidade com o pensamento neocalvinista... Opinou que introduzir o tema da fé e criticar o reducionismo na ciência seria "teologia disfarçada"! Eu retruquei que, pelo contrário, não era disfarçada, mas explícita, e que o problema era o disfarce dos pressupostos religiosos do "estudo científico da religião", que ficam sempre mantidos no escuro. Ele não concordou, obviamente, mas admitiu que seria uma metodologia limitada, mas viável. Foi uma excelente experiência de comunicação intelectual.

Estou aberto a ouvir as impressões daqueles que estiverem dispostos, ou puderem ler os artigos!

Tuesday, April 18, 2006

Artigos do encontro de 2005, da Associação para a Filosofia Reformacional

Em Agosto de 2005 aconteceu, em Hoeven, no sul da Holanda, a conferência da Associação para a Filosofia Reformacional (Association for Reformational philosophy/Stichting voor Reformatorische Wijsbegertee). O tema geral foi: Ética: Personalidade, Práticas e Sociedade. Os preletores principais foram Richard Mouw, John Hare, Gerrit Glas, Joan Lockwood O'Donovan, Young Ahn Kang.
Houve espaço para comunicações científicas, e boa parte delas está disponível online. Tem artigos muito bons sobre ética, principalmente, mas também sobre educação, meio ambiente, e e inclusive um interessantíssimo sobre a recepção da epistemologia reformada de Plantinga na Itália (por Giacomo Carlo Di Gaetano). Veja no link abaixo:

http://home01.wxs.nl/~srw/is2005/speakers/workshops.html

Thursday, April 13, 2006

Diálogos com Ricardo Quadros Gouveia (II)

A conversa continua, em torno de problemas epistemológicos e da relação entre teologia e filosofia. No fim há uma referência à mesa redonda sobre Dooyeweerd na Mackenzie, quando conheci o Fabiano Oliveira.

From: "Guilherme Carvalho" To:
Sent: Friday, January 03, 2003 7:01 PM
Subject: Sobre Dooyeweerd III

Caro professor Gouveia,
>> Tem uma coisa que eu ainda não consegui absorver. Sabe> aquele problema que o VanTil apontou em Dooyeweerd, a> respeito das pressuposições da filosofia? Ele disse> que o caminho que Dooyeweerd usou para identificar> aquele negócio das três idéias transcendentais não> pressupôs explicitamente, desde o princípio, a fé> cristã, estando portanto sujeito à crítica> transcendental por ser um caminho autonomista.> Ou seja: meu problema é, ainda, a questão da relação> da filosofia com a teologia. O próprio sistema de> Dooyeweerd não "pressupõe", de algum modo, o> calvinismo? Por que Dooyeweerd seleciona algumas> idéias (teológicas?) que admite como ponto de partida> da filosofia ao invés de um sistema teológico> completo?>> Paciência, por favor!>> Guilherme.

Olá, Guilherme.Deswculpe não poder responder hoje seus e-mails com mais vagar. Fa-lo-ei na sexta, ok?
Você não toparia vir a SP para ´participar de uma mesa redonda sobreDooyeweerd em nível de pós?
Um abraço. RQG.


Re: Sobre Dooyeweerd
Data:Wed, 26 Feb 2003 14:08:33 -0300

Olá, Guilherme.

> Estou muito agradecido por sua resposta. É que é
> difícil achar um Dooyeweerdiano nesse brasil!

Não tenha dúvidas quanto a isso.

> que você respondeu, vou fazer um monte de perguntas.

Fique à vontade. O único problema é a minha declarada falta de tempo. Eu
sugiro que você ligue, quando quiser uma resposta mais prontamente.

> Mas em algum ponto deve haver uma conexão entre a
> alta abstração e a percepção ingênua. Se as leis
> modais tornam possível a existência das entidades e
> podem ser estudadas, então de alguma forma sua
> formulação na alta abstração deve estar ligada à
> percepção ingênua.

A conexão é o indivíduo. É ele que tem a percepção ingênua e é ele que faz abstrações analíticas.

> O Husserl falou em "intuição das
> essências". E Dooyeweerd? Na certa alguma coisa faz o
> papel - algum mecanismo de percepção das coisas e/ou
> das leis (?).

Se Husserl, de fato, diz isso, ele se mostra com tendências intuicionistas, o que é problemático. Como voce sabe, Husserl é um autor controvertido. Alguns vêem Husserl como um neo-idealista, enquanto outros o vêem como precursor da filosofia analítica. Nada poderia ser mais contraditório. A pergunta sobre Husserl está longe de ser esclarecida.

> De qualquer forma, não vejo como o estatuto
> epistemológico de cada ciência pode ser construído (e
> precisa ser, do contrário, como se distinguirá o
> conhecimento científico da opinião?) sem que tenhamos
> uma epistemologia geral que explique como conhecemos
> as coisas e as leis.

O perigo é você querer construir uma espécie de teoria unificada. Este é o delírio sintetizante dos hegelianos e, no frigir dos ovos, o problema do platonismo clássico. O único estatuto epistemológico válido para todas as ciências é a independência das mesmas dentro da estrutura modal. Cada ciência possui, segundo Dooyeweerd (e isto pode ser uma contradição interna,ou não), um núcleo definidor e um núcleo propulsor.

Nesse ponto é que eu queria saber se Dooyeweerd é incompatível com qualquer tipo de fundacionalismo (especificamente o de Plantinga).

Eu tenho a impressão que sim. Eis por que Plantinga não aprova Dooyeweerd. Há um retorno à tradição platônico-aristotélica em Plantinga, enquanto que HD está (eu acho) decidido a romper com esta mesma tradição filosófica que sempre foi a dominante.

> não precisaríamos explicar, em Dooyeweerd, o
> processo de formação das crenças por meio da percepção
> ingênua, antes mesmo de discutir como cada ciência
> produz conhecimento?

A percepção ingênua é um processo de síntese que se dá a partir da vivência. É um resultado da atuação do cérebro sobre a duração da vivência. Não é preciso explicar o processo de formação da experiênia ingênua a não ser como um capítulo de uma suposta neurociência.

Autor: Ricardo Gouveia
Re: Sobre Dooyeweerd III
Data:
Wed, 26 Feb 2003 14:26:50 -0300

Olá, Guilherme.

Chegou o dia de lhe responder. Desculpe-me a demora.

> Ou seja: meu problema é, ainda, a questão da relação
> da filosofia com a teologia. O próprio sistema de
> Dooyeweerd não "pressupõe", de algum modo, o
> calvinismo?

Eu tenho a impressão que é possível entender esta questão de outra
maneira. O que Dooyweerd faz não é usar algumas doutrinas para fundamentar sua
filosofia, mas sim, promover uma reforma da filosofia que seja coerente
com a impulso reformador do calvinismo. Isto iplica em livrar a filosofia
dos andrajos metafísicos e revesti-la de novas características que
favoreçam e harmonizem-se com a cosmovisão calvinista. Segundo a tradição
kuyperiana, a reforma calvinista não procura somente a reforma da igreja e da
teologia, mas de todas as áreas da vida e do saber, inclusive da filosofia, e
esta está só começando. O que Dooyeweerd percebe é que isto implica em uma
filosofia que promova a autonomia das esferas, em suma, uma filosofia
que se apresenta enquanto metaciência, como scientia scientiarum.

Quanto aos três passos da crítica do pensamento teórico, e a crítica
de Van Til a Dooyweerd, há vários problemas a serem resolvidos. Um deles é o
fato, pouco percebido, de que Van Til entende Dooyeweerd como apologista,
enquanto que HD não pretende fazer apologética e sim filosofia.

> Por que Dooyeweerd seleciona algumas
> idéias (teológicas?) que admite como ponto de partida
> da filosofia ao invés de um sistema teológico
> completo?

Como disse acima, as idéias de Dooyeweerd referentes à crítica do
pensamento teórico, não são teológicas, eu acho. Como HD responde Van Til, este
último confunde transcendental com transcendente. A crítica de Dooyeweerd é
transcendental no sentido kantiano. Isto é, ele está fazendo meta-filosofia, como o próprio Kant na KrV (CRP). Já Van Til parte de um ponto de vista religioso, o que HD chama de transcendente, que eu acho que ele define como "não-racional".

Até mais. RQG


De: "Ricardo" Para: "Guilherme Carvalho"
Assunto: Re: Sobre Dooyeweerd III
Data: Wed, 26 Feb 2003 14:37:39 -0300

Oi, Guilherme.

> No dia 15/04 eu posso.

Ficamos, a princípio, com esta data.

> Mas preciso saber como será, o
> que será discutido, e de que forma eu vou participar -
> é que aqui na FATE eu não posso sair sem apresentar
> uma justificativa.

A idéia é uma mesa redonda com eu, você e o Fabiano Oliveira. Eu vou ser uma espécie de moderador. O alunos já terão tido uma ou duas aulas sobre Dooyeweerd. Eu faria as seguintes perguntas:

1. Na sua opinião, qual a importância de Dooyeweerd para a o pensamento reformado hoje?
2. Quais são os aspecos do pensamento de Dooyeweerd que mais lhe chamam a atenção?
3. Quais são as questões que lhe incomodam, no momento, na sua reflexão sobre a filosofia reformacional?
4. Que estudos você está desenvolvendo ou pretende desenvolver em sua pesquisa acerca de HD?

Depois disso, abriremos para perguntas da classe. São treze alunos em um programa de pós-graudação em ciências da religião.

> Sei que você anda apertado, mas será que poderia
> tentar responder a alguma de minhas perguntas? :-)

Eu já respondi. Se houver outras perguntas, pode mandar.

> Uma aluna minha da graduação está com um projeto de
> escrever sua monografia final (2003) sobre Marx numa
> perspectiva Dooyeweerdiana (ela estudou filosofia na
> PUC antes). Estamos pensando em tentar expôr o ponto
> de partida religioso do pensamento de Marx por meio de
> seu conceito de estado. Eu consegui encomendar o livro
> de Van der Hoeven sobre Marx. Você tem alguma idéia
> para o projeto? E tem alguma bibliografia que
> poderíamos utilizar? Parece que os evangélicos não
> gostam de mexer com o homem...

Não tenho idéias claras sobre o projeto. É um bom projeto, no entanto. Seria
interessante ela dar uma olhada nos textos dooyeweerdianos de filosofia social e política. Eu tenho alguma coisa. Parabéns pelo trabalho. É importante comparar com outras abordagens também, como a de Tony Campolo em "We've met the Enemy, and they are partly right" e de Alasdair McIntire "Christianity and Marxism", por exemplo.

Diálogos com Ricardo Quadros Gouveia (I)

Em Dezembro de 2002 eu travei um diálogo com o Dr. Ricardo Quadros Gouveia, que me ajudou bastante. Gouveia é um dos poucos Dooyeweerdianos brasileiros que conheço. Nós nos encontramos algumas vezes em Sampa, depois dessas conversas, e daí nasceu a esperança de uma futura "Sociedade Brasileira de Filosofia Calvinística", ou de uma "Sociedade Dooyeweerd do Brasil" que, por enquanto, está sendo "esperada"...

Não consegui recuperar todas as mensagens, mas o essencial está aí. A fala do Ricardo aparece sempre em itálico, intercalada com meus comentários.


Caro professor Ricardo,

Estou muito agradecido por sua resposta. É que édifícil achar um Dooyeweerdiano nesse brasil! Agora que você respondeu, vou fazer um monte de perguntas. Sobre a minha pergunta teórica: não sei se entendi bem a atitude de Dooyeweerd com respeito à razão. Para ele a ciência (alta abstração) focaliza o lado de Lei da realidade ao invés das entidades (que a percepção ingênua privilegia). Então cada ciência "pura" vai focar uma esfera modal, e as leis daquela esfera. Mas em algum ponto deve haver uma conexão entre a alta abstração e a percepção ingênua. Se as leis modais tornam possível a existência das entidades e podem ser estudadas, então de alguma forma sua formulação na alta abstração deve estar ligada àpercepção ingênua. O Husserl falou em "intuição das essências". E Dooyeweerd? Na certa alguma coisa faz o papel - algum mecanismo de percepção das coisas e/oudas leis (?).
De qualquer forma, não vejo como o estatuto epistemológico de cada ciência pode ser construído (e precisa ser, do contrário, como se distinguirá oconhecimento científico da opinião?) sem que tenhamos uma epistemologia geral que explique como conhecemos as coisas e as leis. Nesse ponto é que eu queria saber se Dooyeweerd é incompatível com qualquer tipo de fundacionalismo (especificamente o de Plantinga). De um modo ou de outro não precisaríamos explicar, em Dooyeweerd, o processo de formação das crenças por meio da percepção ingênua, antes mesmo de discutir como cada ciência produz conhecimento?

De novo obrigado.
Prof. Guilherme Carvalho

--- Ricardo escreveu: >

Olá, Guilherme.
Sim, lembro-me de você. Como vai?

> > > escrevendo porque eu e alguns professores estamos> > iniciando um núcleo de estudos de orientação> > kuyperiana-dooyeweerdiana em Belo Horizonte.

Eu considero isto surpreendente. Acho excelente, no entanto, e quero me colocar à disposição do grupo para consultas, palestras ou participação em pesquisa.

>>Gostaria de receber alguma ajuda sua e de estar em> > contato, se não se importar, é claro.>

Não me importo.

> > Prá começar, eu gostaria de saber como me> afiliar> > àquela associação dooyeweerdiana internacional que> > você apresentou para nós no curso. Você pode> enviar> > alguma informação?> >

Posso, mas não já. Eu não tenho as informações aqui comigo. Não é fácil entrar em contato com a associação. Eles são um pouco desorganizados.

> > > Agora uma pergunta teórica: parece que> Dooyeweerd> > recebeu alguma influência de Husserl.> >

Sim. É certo que sim. Ele mesmo afirma isso.

> > > num debate com Frege pois este buscou fundar a> > matemática na lógica, contradizendo Kant (que por> sua> > vez fundava a matemática na intuição das formas;> seria> > um dos "a prioris").

e com outros neokantianos que faziam reducionismos, como seu próprio mentor, Brentano.

> > > Com a intuição das essências Husserl buscou salvar as ciências dando a elas uma fundação ontológica e epistemológica.

Husserl tentou salvar as ciências com a fenomenologia, que abre mão do bidimensionalismo kantiano, não retornando à ingenuidade epistemológica pré-kantiana, mas indo além de Kant, reconhecendo no fenômeno a própria coisa-em-si, isto é, o númeno.

> > > Pois bem: não é difícil perceber as conexões> com a> > teoria das esferas modais de Dooyeweerd, sua> crítica> > aos reducionismos, sua afirmação da transcendência> do> > sujeito.

Sim.

Mas gostaria de saber:> além> > da semelhança geral na ontologia, o Dooyeweerd tem> um> > equivalente da "intuição das essências"? Como ele> > funda epistemologicamente as diversas ciências?> Quero> > dizer, como ele passa da ontologia à justificação> > metaepistemológica de uma determinada ciência? Com> > algum "a priori" de inspiração kantiana?

Não, com uma atitude humilde em relação á razão humana, pois o grande> problema do pensamento moderno, seja ele de cunho iluminista ou de cunho fundamentalista (ou fundacionalista), está em superestimar a razão. As ciências são simples recortes abstratos da efetividade sendo que esta última não é jamais apreensível na sua totalidade. São, no entanto, as ciências que produzem conhecimento, e não a filosofia, que é apenas a ciência das ciências, portanto, propedêutica. A grande diferença entre Husserl e Dooyeweerd está no fundamento teísta do pensamento dooyeweerdiano. Mas veja, não se trata de neo-tomismo nem de teologia natural. Isto tudo deve ser abandonado junto com a metafísica clássica como peças de museu. A proposta dooyeweerdiana é entender a Jesus Cristo ou a cristicidade (o pensamento de Dooyeweerd é cristocêntrico) como ponto arquimediano. O único apriori, para Dooyeweerd é Jesus Cristo. Toda teologia é apenas um aspecto ou recorte da efetividade, uma perspectiva e nada mais.

> > > Outra pergunta: a teoria de Plantiga a respeito> das> > funções próprias na formação das crenças poderia> > ajudar aqui? De qualquer maneira, eu gostaria de> saber> > se é possível fazer uma conexão entre plantinga e> > Dooyeweerd.

Sem dúvida é posível. Há um estudo de Scott Oliphint, de Westminster, sobre a questão. Na verdade, Plantinga não é harmonizável com Dooyeweerd por causa dos elementos neo-positivistas de sua reflexão. Ele tem conseguido manter relações mais produtivas com os neo-tomistas que com os dooyeweerdianos ou reformacionais.

> > > Não estou dizendo nada, só "jogando verde"!

Você está dizendo muito, demonstrando plena capacidade de estudar a fundo estas questões. Isso é ótimo. Mantenha o contato e vamos em frente. Não sou mais professor do Andrew Jumper, é bom que você saiba. As mudanças políticas na IPB desde a eleiçõa de julho fizeram com que eu fosse destituído de minhas funções lá. Agora estou na Universidade Mackenzie, onde fui absorvido, graças à organização, no apagar das luzes, do programa de mestrado em ciências da religião. Aqui no ciências da religião, enfocamos o pensamento reformado, e Dooyeweerd é sempre um dos temas de meu curso de temas contemporaneos na tradição reformada. Também quero ver se estimulo alguns alunos a escrever teses sobre ele. Veremos. Enquanto isso, fico aguardando ter tempo de escrever sobre Dooyeweerd eu mesmo. Um livro de introdução, eu penso. Agora não dá, porque estou trabalhando em minha tese de doutorado em filosofia, acerca do conceito de repetição em Soren Kierkegaard. Um abraço. RQG. PS - procure meu livro, "A Palavra e o Silêncio", que eu acho que você vai gostar.

Uma Breve Conversa com Luiz Roberto França de Mattos

Em 2002 tive um breve diálogo com o Luiz Mattos, filósofo calvinista falecido em 2004. Na época eu estava começando na filosofia reformada. Foi interessante ouvir seus comentários sobre Wolterstorff e a Teologia da Libertação. Ele me recomendou a leitura de sua dissertação de doutorado, sobre o tema (que eu não consegui obter ainda); no próximo encontro da Rede (em Julho deste ano) vamos discutir um pouco as idéias de Wolterstorff.


Caro professor Luiz Mattos;

Tudo bem? Não sei se você se lembra de mim. Meu nome é Guilherme Carvalho. Sou de BH, e assisti a uma aula sua em 2001. Meu Pai (Elildo Carvalho) foi seu aluno. Pois bem: estou escrevendo porque eu e alguns professores aqui de BH estamos iniciando um núcleo de estudos interdisciplinares de orientação kuyperiana. Gostaria de estar em contato com filósofos reformados e de receber alguma ajuda, se você não se importar, é claro. Começo com uma pergunta: é possível fazer alguma conexão entre a epistemologia de Plantinga e a filosofia de Dooyeweerd? A primeira pode ajudar a esclarecer a intuição das esferas modais kuyperianas-dooyeweerdianas? Agora um pedido: tem como eu conseguir uma cópia de sua dissertação de doutorado (sobre a teologia da libertação)? É que eu estou pensando sobre as conexões (e descontinuidades também) entre a missão integral eo neocalvinismo (a propósito: li seu artigo na Fides e consegui uma cópia do Wolterstorff). Como sou neocalvinista convicto, sinto que há uns desajustes. Aguardo ansiosamente sua ajuda. Prof. Guilherme Carvalho. Faculdade Evangélica de Teologia de BH

Caro Guilherme,

Obrigado por seu e-mail. Você levanta várias questões muito interessantes. Terei muito prazer em manter um diálogo com você sobre elas. Prometo lhe enviar uma resposta, ao menos para aquelas sobre asquais já pensei um pouco a respeito, na próxima semana. Amanhã, terei uma reunião de planejamento do ano acadêmico 2003 com todos os professores do CPPGAJ, durante todo o dia. Grato por seu interesse e compreensão.

Luiz Mattos-----Mensagem original-----De: Guilherme Carvalho. Enviada em: quarta-feira, 13 de novembro de 2002 16:57Para: Luiz Mattos. Assunto: Epistemologia Reformada

Caro Guilherme,

Uma vez mais obrigado por seu e-mail. Lamento minha demora em responder. Estive bastante atarefado nos últimos dias trabalhando no preparo do Processo Seletivo 2003, ao lado de outras responsabilidades, o que me impossibilitou de lhe escrever antes. Conto com sua compreensão.
NA verdade, embora tenha me esforçado não consegui me lembrar de você. Creio que tivemos um contato muito rápido. No entanto, lembro-me muito bem de seu pai, e de suas participações sempre muito positivas nos cursos que ensinei.

Parabéns pela iniciativa de iniciar um grupo de estudos interdisciplinares a partir de uma cosmovisão Kuyperiana. Como você já percebeu, Kuyper (e o neo-Calvinismo holandês) ainda é bastante desconhecido em nosso meio reformado aqui no Brasil. À sua semelhança, estou convencido de que a obra de Kuyper é de extrema importância para que desenvolvamos um Calvinismo que nos permita interagir responsável e apropriadamente com as diversas esferas de soberania identificadas por ele: Ciência, Arte, Estado, Economia, etc.

Quanto à sua pergunta acerca da potencial conexão entre os projetos de Dooyeweerd e Plantinga, faço as seguintes observações:

1. meu conhecimento de Dooyeweerd é limitado. Além de sua crítica a Van Til na obra Jerusalem and Athen Revisited, avaliei superficialmente apenas Roots of Western Culture. Entretanto, é evidente, como você observa em seu e-mail, e Wolterstorff reconhece em sua obra Until Justice and Peace Embrace, que o projeto de Dooyeweerd incorpora a noção Kuyperiana de Esferas de Soberania como uma realidade ontológica baseada na ordem da criação.

2. Em Roots of Western Culture, identifico os seguintes elementos da filosofia Dooyweerdiana pelos quais nutro apreciação:

a. Seu reconhecimento de que iniciar a investigação da realidade em qualquer dos vários campos do saber humano (Matemática, Ciências Naturais, Biologia, Psicologia, Lógica, História, Lingüística, Sociologia, Economia, Estética, Teoria Legal, Ética ou Ciência Moral), “sem a luz do verdadeiro conhecimento de Deus e de si mesmo” tenderá a gerar uma absolutização de um conhecimento específico e um conhecimento falso da realidade como um todo. A seguinte declaração de Dooyeweerd substancia este ponto [peço licença para citar o texto em inglês para não correr o risco desnecessário de problemas com a tradução] : “Whoever absolutizes one aspect of created reality cannot comprehend any aspect of the basis of its own inner character. He has a false view of reality. Although it is certainly possible that he may discover important moments of truth, he integrates these moments into a false view of the totality of reality.” [Dooyeweerd, Roots of Western Culture. Toronto: Wedge Publishing Foundation, 1979, p. 42. Desculpe-me a citação completa. É só para permitir a conferência do texto se você desejar]
b. Seu reconhecimento de que ainda que o incrédulo possua uma falsa perspectiva da totalidade da realidade, ele ainda possui glimpses [vislumbres] da verdade, ou nas palavras do próprio Dooyeweerd, “momentos de verdade.” Esta posição parece-me mais apropriada do que a perspectiva defendida por Van Til, em My Credo, onde ele parece rejeitar o acesso do incrédulo à verdade “whatsoever.” [Reconheço que minha análise da obra de Van Til é por demais simplificada neste e-mail]. Se você desejar maiores informações acerca do assunto, não restará alternativa senão fazer um curso comigo em Epistemologia Reformada quando o mesmo for oferecido.

3. Plantinga, em suas obra mais recente em Epistemologia, Warranted Christian Belief, não se preocupa em relacionar seu projeto com as esferas de soberania propostas por Kuyper/ Dooyeweerd. Seu projeto é, até onde o entendo, desenvolver uma apologética negativa, demonstrando a racionalidade da fé cristã, de forma a responder a potenciais questionamentos de incrédulos. Note, entretanto, que ele não se propõe ao desenvolvimento de uma filosofia racionalista, nem de uma apologética positiva. È convicção explícita de Plantinga que apenas a obra regeneradora do Espírito Santo pode levar à conversão e ao conhecimento de Deus. Não obstante, ele se dispõe a descrever racionalmente este processo, investigando a capacidade noética do ser humano antes e pós-queda, bem como os efeitos noéticos da ação do Espírito no homem regenerado.

4. A despeito de Warranted Christian Belief não fazer qualquer menção às esferas de soberania Kuyperianas, é possível identificar uma ênfase de Plantinga a elementos da estrutura da criação e aos efeitos da queda sobre os mesmos. Em outras palavras, não creio que Plantinga tivesse qualquer razão para rejeitar a perspectiva Kuyperiana.

Quanto à minha dissertação de doutorado, esclareço o seguinte:

1. A obra não é sobre a Teologia da Libertação. O título é “Uma Análise da Teologia e da Ética Social de Leonardo Boff.” O texto está em inglês. Há um exemplar na Biblioteca do Calvin, mas não creio que isso lhe será muito útil. Eu tenho original, mas você teria que aproveitar uma de suas vindas a São Paulo para verificar o que desejaria copiar. Num futuro não muito remoto, espero trabalhar na tradução e publicação da obra.

2. Não entendi exatamente o que você quis dizer em seu e-mail por “desajustes.” Os desajustes a que você se refere são entre a Teologia da Libertação e projeto neo-Calvinista? Entre minha interpretação de Wolterstorff e a intenção do autor em Until Justice and Peace Embrace? Entre a posição de Wolterstorff e a da Teologia da Libertação?

3. O que quer que você tenha em mente, é minha convicção que Wolterstorff, a despeito de ser um neo-Calvinista assumido, tentou se valer de alguns subsídios fornecidos pela Teologia da Libertação, tal como, a teoria da dependência por exemplo, promovendo um tipo de síntese entre neo-Calvinismo e TL. Não creio que ele tenha sido bem sucedido. Em minha dissertação, deixo isso claro, como você poderá observar, se vier a lê-la.

Espero que estas observações sejam úteis em seus estudos. Lamento uma vez mais minha demora em responder seu e-mail. Minha oração é que o Senhor continue a abençoá-lo em sua vida acadêmica e pessoal.

Wednesday, April 12, 2006

História Reformacional

Uma das coisas realmente difíceis de descobrir é o paradeiro dos historiadores cristãos. Mas de tanto fuçar achei alguma coisa. Primeiro, a já conhecida revista "Fides et Historia", no site da Conference on Faith and History. O Editor é o Ronald Wells, do Calvin College (que coincidência...).

http://www.huntington.edu/cfh/

E no Blog do Bishop encontrei o "Cliosophy", dedicado à história da filosofia, na abordagem de Vollenhoven, mas também à filosofia - ou "cliosofia" reformacional. Apresenta e comenta vários historiadores cristãos. Jóia demais!

http://www.freewebs.com/refclio/index.htm