Thursday, November 30, 2006

KUYPER E O CONFLITO FÉ E CIÊNCIA

Segundo Kuyper, não existe um conflito básico entre fé e ciência, pois a ciência, quando tenta estabelecer a relação entre sujeito e objeto, necessita pressupor pela fé vários princípios não verificáveis racional ou empiricamente. Dentre estes estão: a autoconsciência do investigador; o trabalho acurado dos sentidos na medida em que este fornece informações reais sobre a externalidade; o funcionamento correto das leis do pensamento atuando no sujeito da investigação; fé em algo universal escondido por detrás dos fenômenos especiais; fé na vida; e fé nestes princípios gerais dos quais o sujeito procede em qualquer empreendimento científico (2002: 138).
Em sua obra Sacred Theology, Kuyper parte de uma reflexão interna do próprio processo de fundamentação da ciência, dialogando com propostas empiristas e racionalistas, afirmando a base cristã fundamental do próprio empreendimento científico, o qual o influenciará na proposta de uma ciência cristã. Após explorar os aspectos da relação entre sujeito e objeto Kuyper afirma que:

Uma vez que o objeto não produz o sujeito, e o sujeito não produz o objeto, o poder que liga os dois organicamente juntos precisa necessariamente ser buscado fora de ambos (...) e por mais que ponderemos ou tentemos especular, não há forma de conceber como esta relação de afinidade orgânica se apresenta (...) sob a qual o edifício da ciência é erigido, até que às mãos da Escritura Sagrada confessamos que o Autor do cosmos criou o homem no cosmos como micro-cosmos conforme sua imagem e semelhança. (Kuyper, 1980:19)

Um segundo aspecto fundamental na proposta kuyperiana que fundamenta sua proposta de duas ciências é a afirmação de que o sujeito do fazer científico opera basicamente em um processo de encadeamento causal a partir de princípios firmemente estabelecidos em sua consciência. Segundo Kuyper, o grau de certeza que uma pessoa tem de sua convicção não pode ser exposto sem causar a antítese com o resultado científico de outros, se tornando fator marcante no resultado científico. E isto se torna ainda mais presente quando se trata de uma ciência espiritual, cujo objeto é psíquico. A consciência subjetiva de comunidades inteiras, das quais procedem os princípios gerais que orientam o empreendimento científico, operam fortemente na direção das ações humanas, moldando-os conforme seus princípios, seja na ciência, na arte, religião, vida social, e negócios (1980: 49).
Como aspecto de diferenciação básica entre duas propostas científicas está à noção kuyperiana de palingenesis, ou nova criação. A dogmática descreve, segundo Kuyper, a realidade experimentada pelos filhos de Deus, de que ocorre no homem regenerado uma transformação fundamental que está acima da consciência humana, e que a transforma de forma radical, uma regeneração, um nascer de novo, seguido por uma iluminação, que modifica o homem em seu mais interno ser. Esta distinção gerada pela palingeneses não é em grau ou especificidade, mas de tipo, como na relação entre uma arvore enxertada e uma selvagem, que gerarão frutos completamente distintos. Segundo Kuyper:

Nos falamos enfaticamente em dois tipos de pessoas. Ambos são humanos, mas internamente são distintos um do outro, e consequentemente sentem um conteúdo distinto emergindo de sua consciência; assim eles encaram o cosmos de diferentes perspectivas, e são impelidos por diferentes impulsos. E o fato de que há dois tipos de pessoas ocasiona a necessidade do fato de que há dois tipos de vida e de consciência de vida, e de dois tipos de ciência. (1980: 51)

Para Kuyper, assim, a aceitação da unidade da ciência seria a negação do fato da palingeneses, e que por princípio conduz à negação da própria religião cristã. Assim, mesmo operando com impulsos em direção ao fim da ciência e utilizando métodos semelhantes, os dois modelos de ciência partem de princípios distintos, e chegarão a resultados distintos, estabelecendo a afirmativa de que no esforço científico destas duas comunidades estão sendo construídos dois edifícios do conhecimento científico, e não um. E embora a palingeneses não interfira sobre a capacidade de apreensão dos sentidos e do uso das leis da lógica, presente no início de qualquer processo científico, a interpretação posterior presente em todas as ciências, seja nas naturais ou espirituais, conduzirá o empreendimento científico a resultados claramente distintos.

Assim, somente a partir de uma cosmovisão cristã abrangente pode a ciência ter restaurado seu domínio, ser favorecida em sua busca como pela própria glória de Deus, e produzir resultados verdadeiros, em consonância com o estado das coisas na realidade do universo criado por Deus compreendido a partir de sua revelação.


BIBLIOGRAFIA

KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Editora Cultura Cristã. 2002.
KUYPER, Abraham. Sacred Theology. Delaware: Associated Publishers and Authors, 1980.

4 comments:

Guilherme Carvalho said...

Olá Rodolfo!

Vc tocou em muitas coisas importantes em um texto curto...

Pois bem; é muito interessante mesmo a resposta de Kuyper para o problema da relação sujeito-objeto (S-O). Kuyper sugere um terceiro termo para estabelecer a síntese.

Veja se entendi: o Kuyper argumenta que a fé é uma parte da vida, e que se manifesta também na ciência, na medida em que precisamos confiar em que há uma conexão S-O, uma vez que a natureza dessa conexão não nos é dada no interior dela própria, isto é, por meio da própria razão?

Se for isso, então, percebe-se uma conexão com Dooyeweerd - a idéia do homem como microcosmo seria, exatamente, a de que o homem como ser total é o pto arquimediano de todo conhecimento, e que tal ponto é reconhecido no homem como o lugar em que seu ser total está concentrado, isto é, no seu coração.

A idéia que orienta o homem na interpretação de sua relação cognitiva com os objetos seria, então, a visão que o homem tem sobre si mesmo e sua Origem absoluta; mas isto seria recebido "por fé".

Quero comentar depois a questão das "duas ciências", mas este ponto especificamente me interessa no momento.

E aí?

Guilherme

Rodolfo Amorim said...
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Rodolfo Amorim said...

Guilherme,

Creio que a noção de homem como Microcosmo feito à imagem de Deus no Cosmos de Kuyper tem paralelos estreitos com Dooyeweerd. A dificuldade fica apenas no salto terminológico Dooyeweerdiano. Por exemplo, em Kuyper a noção de relações orgânicas entre o homem como sujeito e os objetos no cosmos está presente a todo momento. As idéias Dooy, por sua vez, de que as modalidades que compõe o homem são as mesmas que compõe as demais estruturas de individualidade do Cosmos, ainda que em um grau reduzido, parece-me esta mesma idéia de organicidade. A relação assim entre sujeito e objeto se daria pela aceitação em ambos, pela fé, da revelação de que Deus estabeleceu normas (ou leis)fora dos homens e dos objetos que mantém estes unidos ao mesmo tempo em que se diferenciam como estruturas de individualidade - possíveis apenas pela cosmonomia e a idéia de significado ante a noção do ser como ente.

Guilherme Carvalho said...

Oi Rodolfo!

Vc disse:

"A relação assim entre sujeito e objeto se daria pela aceitação em ambos, pela fé, da revelação de que Deus estabeleceu normas (ou leis)fora dos homens e dos objetos que mantém estes unidos ao mesmo tempo em que se diferenciam como estruturas de individualidade - possíveis apenas pela cosmonomia e a idéia de significado ante a noção do ser como ente"

Vc está dizendo, então, que a idéia que alguém sustenta sobre como se dá a relação S-O é recebida pela fé? Ou seja, que, na visão reformacional, a idéia de que essa relação é dada pela cosmonomia é o elemento pístico do pensamento teórico?

Gui